Onde Está a Felicidade?

A literatura, desde os tempos mais remotos até os tempos atuais, tem tratado deste tema universal e eterno, que é o da felicidade.

Dificilmente se encontram dois escritores ou dois poetas que tenham pensado identicamente sobre a felicidade e no que ela consiste.

Essa palavra está sempre na boca de todo mundo, todos a empregam, e, no entanto, o lamento mais constante e contínuo que se encontra é o de que a felicidade está sempre distante e nunca é alcançada.

Felicidade Subjetiva ou Objetiva

É comum ouvir-se alguém dizer estas palavras: “se eu tivesse isto ou aquilo eu seria feliz.”. Outros dizem: “ah, hoje sou feliz, consegui o que queria.”

Poderíamos dividir a felicidade em dois aspectos:

A felicidade subjetiva seria aquela que sentimos interiormente, aquela que nos dá a tranquilidade e a serenidade interior, aquela que nos dá a confiança em nós mesmos, a certeza de que podemos realizar isto ou aquilo, o pleno conhecimento de nós mesmos, a fruição interior das nossas emoções, a capacidade de vencermos o nosso sofrimento e o nosso desespero, o nosso autodomínio capaz de permitir que saibamos esperar; enfim, consiste em tudo aquilo que forma o nosso mundo interior.

A felicidade objetiva é aquela que colocamos não mais em nós mesmos, mas nas coisas. Quem não tem uma coisa, julga que ao obtê-la encontrará a felicidade. Muita gente põe a sua felicidade num automóvel, numa casa, e até em coisas menores como, por exemplo, uma vitrola, um rádio, e há até quem se considere feliz por ter um telefone em sua casa.

Ora, se examinarmos bem, se observarmos bem as pessoas que nos cercam, verificaremos que todos aqueles que colocam a sua felicidade nas coisas e que julgam que a terão realizado quando as obtêm, acabam por sofrer da grande decepção de que as coisas desejadas, quando obtidas, não lhes dão a felicidade que esperavam. Toda vez que se coloca fora de nós a felicidade, ela torna-se mais incalculável do que nunca, porque a satisfação que nos pode dar a obtenção de alguma coisa não é propriamente a felicidade.

“Um pequeno curso d’água, como um rio profundo, pode refletir o sol.” Walter Savage Landor

Há, aqui, uma ingênua confusão entre felicidade e satisfação. A satisfação é um instante apenas, um instante fugidio de que a nossa vida está maior ou menor enriquecida.

O que se considera felicidade é um estado mais demorado, perene, homogêneo, é uma sensação inefável que paira sobre todas as outras sensações e que empresta a ela um brilho e uma intensidade toda particular.

Assim se vê que são sempre infelizes aquelas pessoas que se dirigem à felicidade de caráter puramente objetivo. E, ao contrário, aquelas pessoas que compreenderem que a felicidade é subjetiva e a procuram dentro de si, são precisamente as que tem a maior força, as que vencem com maior facilidade, as que conseguem enfrentar as situações mais difíceis.

A felicidade consiste na vitória, mas a verdadeira vitória é aquela que realizamos sobre nós mesmos.

Os que julgam que a vitória puramente exterior é a única que conhecemos e a maior de todas, erram completamente, redondamente, pois esta vitória exterior para se tornar perene, isto é, nos dar uma satisfação perene, que é o conceito mais simples do que seja felicidade, necessita ser ilustrada, glorificada, enobrecida por uma vitória interior.

Todo aquele que conhece vitórias interiores, que consegue vencer os seus desejos, os seus impulsos, que consegue analisar a si mesmo, conhecer seus defeitos e suas virtudes, sua capacidade de ação e suas fraquezas, que sabe o que sabe que não sabe o que não sabe, que organiza as suas forças interiores dando-lhes a tensão necessária e correspondente para a realização de qualquer ato, é um homem feliz e estará perfeitamente apto a conquistar as vitórias exteriores e obter as satisfações que lhe podem dar as coisas.

Esse vitorioso interior, que vai conhecer vitórias exteriores, é o homem que está aptamente preparado para gozar da felicidade.

Mas se pensar que as vitórias exteriores são as únicas, então ele verá que ao obter as coisas desejadas, estas lhe dão apenas uma satisfação momentânea, mas ao tempo farão crescer os desejos das outras coisas que ainda não possui, e ele, ingenuamente, mas insatisfeito sempre, julgará que a sua felicidade estará nestas outras coisas que ainda não possui.

Por outro lado, aquele que organizou as suas vitórias interiores, que conhece, portanto, a felicidade subjetiva, a verdadeira felicidade, estará apto a conhecer uma satisfação sempre constante que lhe darão até as menores coisas de que dispõe, porque ele tem dentro de si a capacidade de poder fruir de todas as coisas a maior soma de bens e de satisfações que as coisas podem dar, porque, na realidade, elas servirão apenas de motivos para permitir o desabrochamento da grande alegria interior.

Os homens verdadeiramente grandes que a história registra foram aqueles que conheceram a verdade interior, homens autênticos que viveram a si próprios, que sabiam plenamente o que eram, que tinham conhecimento da sua capacidade, da sua força e da necessidade que os ordenara interiormente.

Esses homens foram os grande vitoriosos. Se às vezes, nas páginas da história, tem eles um relevo menor que outras personagens inferiores, isto não impede que com o decorrer do tempo tenham eles sido devidamente apreciados no seu verdadeiro valor. E se muitos foram dominados pelo desejo das conquistas das coisas exteriores e nelas puseram a sua felicidade, a própria história registra a infelicidade em que viveram, e o fim quase sempre trágico que tiveram.

Se puseres nas coisas a tua felicidade, é natural que sempre te sintas infeliz. Não cometeríamos o erro de te aconselhar que encontres naquilo que te cerca, nas coisas que formam o teu mundo, a tua felicidade, porque estarias seguindo um caminho errado, pois nelas jamais encontrarás a felicidade. Mas nelas poderás encontrar muito da tua felicidade, por que nelas poderás também realizar a tua felicidade se antes a tiveres construído subjetivamente. Atingida esta felicidade subjetiva, então verás que o mundo é muito mais belo do que julgas, e que é na presença das tuas coisas que poderás realizar um pouco da tua felicidade e não na ausência delas.

E quando obtiveres algo de novo, ela te dará não só a satisfação que lhe é inerente, mas servirá também para exaltar dentro de ti a tua felicidade subjetiva, glorificada pela nova vitória, mas, sobretudo, glorificada porque te pode permitir essa nova vitória.

Este é o conselho que podemos dar.

Trecho do livro “Constrói tua Vitória” de Mark Kimball, como eles descrevem é um breviário de higiene mental, publicado na coleção “Dicionário do Lar” (1965)

Espero que esse texto tenha lhe sido útil.

Obrigada pela leitura!

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